segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O IMPREVISTO

No turbilhão dos mundos, como remota sombra da terra, surge a velha CONCIÊNCIA.
Diante dela desenrola-se a visão misteriosa do Cosmo.
Envolve-se a poalha liminosa do Além.
E, dentro desse turbilhão que nunca se acalma e rodopia na vertigem do movimento infinito, a velha conciência descobre a Alma do artista, perdida na voragem que a impele; separa-a do tumulo das coisas, arranca-a do abismo, conduzindo-a cuidadosamente ao solo.Mostra-lhe, então, a majestade do tempo e do espaço, a beleza das coisas criadas e incriadas.
A Alma do artista, voltada para si mesma, contempl serenamente o painel formidável.
Assiste a queda dolorosa das cintilações dos outros mundos, a reverberação da matéria transitória, a transfusão das lágrimas mortais em pingos trêmulos de ondeante orvalho; vê rolos de nimbos que se espreguiçam molemente, desnudando surpresas de astros cadentes, e vai assim galgand, com o olhar, aos poucos, a imensacurva do ocaso...
Unido-se, lentamente, a silenciosa harmonia da natureza, a sua alegria e ao seu sofrimento, deixa cair gotas e gotas do prazer e da dor, na muda ascensão dos sentidos extasidos...
Então, a Conciência, despertando-a desse doce e terrível letargo, mostra-lhe a linha do nível dizendo-lhe:
- Esta, condenda pelo destino, sofre a fatalidade, a imponderável fatalidade da monotonia. Ela é a própria Humanidade!... Não se curva nem se adapta, não vibra e não se move...
E a Alma do artista, como fulgor da própria luz que dela emana, vislumbra, através de um cristal sutil e étero, um vasto cenário. vultos, massas e coisas que se equilibram na atração mútua da pórpria gravidade ( pretedentes talvez e imagens, seres e alma ) movem-se no ritimo doloroso de bonecos ridículos, incapazes de se elevarem acima do nivel cósmico, onde vagueiam as almas do Dom...
Brada, então, a velha Conciência:
-Agora, és um mortal, conheces a Humanidade.
-Podes ver a matéria das coisas, porquejá sentes a vida através dos seus fenômenos!...
-Caminha... Caminha...
-um pouso certo terás!
-Serás uma vez imortal!
-Chegaste a posse do Espirito fugitivo!...
-Prossegue!... Prossegue!... Porque já és a Alma de um Artista.

Heitor Villa-Lobos



Um comentário:

  1. Villa Lobos era e é incrível;
    Totalmente insano mediante a sociedade de sua época, mas acalantado por ele dentro da própria realidade.
    Deixou claro o chão comum do delírio humano de modo que qualquer ser andante tenha como sentir qualquer afã com o que ele produzia e produz.
    O autor viabiliza a ideia de eternidade sendo ele mesmo o próprio, morto ou vivo - não se sabe -, mas indiscutivelmente eterno.

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